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Sobre a Linguagem dos Símbolos

 

 

O ano litúrgico simboliza a sabedoria de Deus sobre o tempo: "Cristo, ontem e hoje, o princípio e o fim, o Alfa e o Ômega; todo o tempo pertence a Ele, e todos os séculos" (da antiga liturgia da Vigília Pascal)
As palavras falham quando se trata de exprimir na sua plenitude, a experiência que temos com Deus. Para falar do ministério desta Presença, que transcende o tempo e o espaço, a religião possui a sua linguagem própria. É a bela e rica linguagem do rito, do poema, da metáfora, da parábola --- a linguagem dos símbolos, que comunica, não por colocações lógicas, mas por alusões à Realidade-além, maior do que o símbolo em si mesmo. É uma linguagem que varia ao infinito: gestos, objetos, seres viventes, frases, atos, músicas, ritos, fenômenos naturais, credos, formas plásticas, cores e mais.
O próprio ano cristão é um símbolo. Afirma que o tempo e a história são as áreas da atividade criativa e redentora de Deus. A salvação não consiste em se escapar a este mundo. O ano cristão celebra o tempo como a ocasião propícia para a intervenção da graça de Deus, e para a decisão humana em aceitar ou rejeitar a promessa do evangelho. O ano cristão simboliza a atuação de Deus neste mundo, no tempo e no espaço, conclamando-nos a celebrar seus atos semanalmente no culto dominical.
Há na Bíblia, uma variedade infinda de exemplos da linguagem dos símbolos: o gesto simbólico da "imposição das mãos do presbitério" (I Timóteo 4.14): objetos simbólicos como o candelabro de ouro com suas sete lâmpadas (Êxodo 25.31-40, Zacarias 4.2; Apocalipse 1.12); o ato simbólico do lava-pés, (João 13); o simbolismo da música instrumental e vocal, (I Crônicas 6.31-32) e do cântico dos salmos no templo (Salmo 105.2); os ritos simbólicos do batismo e da Santa Ceia; o fenômeno natural do arco-íris (Gênesis 9.13; Apocalipse 4.3); o primeiro credo, ou símbolo, da fé cristã, "Jesus Cristo é o Senhor" (I Coríntios 12.3); a representação simbólica da serpente de bronze (Número 21.8-9; João 3.14), e outros mais.
Temos duas maneiras de conhecer a realidade: a racional e a intuitiva. Uma se aproxima da realidade por meio de conceitos, idéias, argumentos e palavras. A outra, por metáforas, estórias e símbolos. Essas duas formas de conhecimento não podem ser separadas, pois uma complementa a outra. Infelizmente o nosso protestantismo tem separado as duas. Por causa disso a igreja hoje vem sofrendo as conseqüências graves dessa falsa dicotomia. Ou caímos no extremo de uma religiosidade verbal, que valoriza somente o discursivo, o didático e o polêmico; ou reagimos contra a ausência dos elementos efetivos e emotivos, o que vem a dar numa religiosidade subjetivista, na qual as emoções têm precedência sobre o racional. Uma das tarefas prementes do protestantismo hoje, é recuperar a unidade entre o conhecimento racional e o conhecimento intuitivo e efetivo da fé cristã. Temos substituído a grande riqueza da linguagem dos símbolos por conceitos abstratos, leis moralistas, e o emocionalismo. Temos ignorado o poder de transmitir o sentido do divino, inerente aos símbolos. Precisamos tomar posse desse vasto patrimônio, que é nosso ramo presbiteriano da Igreja de Jesus Cristo. Um símbolo cristão aponta para uma realidade além da compreensão racional, e ao mesmo tempo, participa do significado da própria realidade que representa. A sua função principal é a de desvendar dimensões da Realidade Divina  em que "vivemos, nos momentos e existimos", as quais de outra maneira, não seria percebida.
Muitos protestantes desconfiam do emprego dos símbolos, temendo serem os mesmos transformados em objetos de devoção, ao invés de nos falar das coisas de Deus. Contudo, os símbolos não são imagens com a pretensão de visualizar em si mesmos a realidade espiritual. Um símbolo cristão é simples, porém, não simplista como uma imagem. A nossa experiência com Deus é de uma profundidade e riqueza insondável, e o sentido de qualquer parte dela nunca poderá ser esgotado por sua representação simbólica. Não há perigo de idolatria, quando o significado do símbolo é esclarecido pela compreensão bíblica e teológica, nele contidas.


Os Critérios para o Emprego de Símbolos na Igreja
1. Os símbolos devem surgir das Escrituras, onde encontramos nossa identidade como povo de Deus. Nas Escrituras descobrimos que somos um povo batizado na água, em nome de Deus Triúno: um povo da cruz, chamado a falar e agir, dando continuidade à missão de Jesus; um povo sobre o qual desceu o Espírito Santo como fogo, e que aguarda a vitória final do Senhor, com lâmpadas acesas. Ao empregar símbolos gráficos da Bíblia, afirmamos a nossa identidade como um povo formado pela Palavra de Deus.
2. Os símbolos devem surgir da tradição cristã. Não podemos descartar dois mil anos de reflexão teológica, vida devocional e expressões visíveis da fé dos muitos que serviram a Cristo antes de nós. Esta é a tradição cristã, a parte viva do nosso passado cristão que nos antecederam, e negar que somos um com eles em Cristo.
3. simbolismo cristão deve ser uma expressão do caráter especial da comunidade em que é usado. Não existem comunidades de fé genérica. Cada uma é colorida pelo contexto cultural, lingüístico e étnico em que vive e desempenha a sua missão. Muitas igrejas perpetuam um tipo de religião que, sutilmente, incute nos seus fiéis a convicção de que um verdadeiro cristão deve desprezar a sua identidade cultural. Vemos isto em nossas igrejas, especialmente através da música (símbolo sonoro da fé) cantada pelos jovens, a qual, muitas vezes, não passa de uma cópia de papel-carbono de ritmos, melodias e sentimentos de uma certa religiosidade norte-americana. Enquanto isto, as autênticas expressões religiosas e artísticas que surgem do contexto brasileiro são desprezadas como sendo "do mundo". Uma igreja que não cria sua própria linguagem simbólica, não está exercendo os dons que lhe foram concedidos pelo Espírito Santo, deixando de fazer a sua contribuição peculiar à diversidade e riqueza do testemunho universal do corpo de Cristo.


 

 

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